Avó Rica, Avó PobreAbril

Você sabia que antes de 1997 os pequenos agricultores do Zimbabwe produziam mais milho do que todos os produtores comerciais juntos? Em 1995 a produção atingiu um recorde de 2,6 milhões de toneladas. Estamos a falar de um universo de 1,5 milhões de agricultores familiares frente a menos de 4.000 produtores de grande escala nesse mesmo ano de 1995. No final da década de 2000 a agricultura contribuía com mais de 21% do PIB do país.

Mas como é que é possível que produtores que não detinham mais do que 3 hectares produzissem mais milho do que grandes latifundiários que chegavam a cultivar 2.000 hectares? O que motivou famílias, que normalmente produziriam o suficiente para a sua alimentação, a não parar aí e produzir ainda um excedente? Como é que eles sabiam a quem vender esse excedente? Como é que eles sabiam qual o preço justo desse excedente e se isso cobriria os custos incorridos? Mantenha estas perguntas em mente enquanto vamos examinar uma situação bem mais próxima de nós.

Angola também é um país da África Sub-Sahariana e possui um número expressivo de agricultores familiares. Estes agricultores, na sua maioria mulheres, perfazem quase 9 milhões de cidadãos do país (6 vezes mais do que no Zimbabwe) que de alguma forma se dedicam a actividades conexas à agricultura, sendo que uma grande maioria destes trabalha na informalidade. As famílias Angolanas têm 25% mais terras aráveis do que as famílias Zimbabweanas e, mesmo assim, poucas delas podem afirmar que conseguem viver daquilo que produzem. Muito menos conseguem dizer que vivem do excedente da sua produção. Praticamente nenhuma destas famílias sabe dizer ao certo quanto ganhará por um quilograma de milho ou se o mercado será capaz de absorver esse produto. Isto é uma receita segura para o desperdício, que os estudos apontam como sendo 13% da produção local. Nós acreditamos firmemente que este valor está subestimado.

A dolorosa realidade é que muitos vêm as suas colheitas apodrecer ou ser destruídas por pragas simplesmente porque não conseguem obter um valor justo por elas. Eles esperam que se postergarem a venda, conseguirão preços melhores. Outras vezes simplesmente não têm como pagar o transporte da sua produção até aos melhores mercados nos centros urbanos. Com que dinheiro? Sem muitas alternativas, eles são forçados a confiar em intermediários que recolhem, transportam e vendem os seus produtos à consignação. Senão, manter a produção em sua posse para uma eventual venda futura melhor provavelmente resultará em desperdício.

Este testemunho não é boato nem lenda urbana. Estes dados foram recolhidos da própria voz de centenas de agricultores familiares das regiões do Bié, Huambo e Malanje. Durante várias visitas falámos directamente com os produtores e sentimos a sua dor ao contarem histórias da infeliz realidade do potencial agrícola não explorado frente a uma exploração inescrupulosa da ingenuidade dos produtores.

É obvio que os agricultores familiares Angolanos são capazes de produzir uma variedade de culturas ​​em quantidade e qualidade nas terras altamente aráveis. Eles simplesmente não sabem o que é qualidade, o que é que o mercado procura em calibre, ponto de maturação ou qualquer um dos outros critérios de qualidade. A procura que esta produção local tem nos mercados informais como o Quilómetro 30, Cantinton ou Kikolo não é exigente. Os vendedores frequentemente apregoam as suas batatas como “nacionais” ou as cebolas como sendo “as melhores da Funda”. Eu sou um visitante regular desses mercados e todas as vezes sou bombardeado por convites amigáveis para comprar as cenouras mais frescas de uma senhora ou os tomates maduros, firmes e suculentos a “bom preço”.

Há, obviamente, muito valor nas plantações produzidas localmente! Como garantimos que os produtores dessas culturas, que compõem a grande maioria dos produtores informais, podem obter um preço justo pelos seus produtos? Como garantimos que eles podem vender todas as suas colheitas em vez de vê-las apodrecer? Como garantimos que cultivam as culturas certas na quantidade certa e com qualidade para o mercado certo?

Voltemos, então, para o Zimbabwe pré 1997. Esta era a altura em que o Zimbabwe era o celeiro de Africa e maior exportador de produtos agrícolas, tendo apenas um pouco mais de 10% da população total de Angola. O que havia de tão peculiar e que fazia com que agricultores de subsistência cultivassem milho e outros cereais com confiança, mesmo em quantidades superiores às necessidades da sua família?

Teriam eles meios mecanizados mais avançados? Teriam redes de transporte e logística melhores? Teriam melhor clima, melhores sementes e fertilizantes para maximizar o rendimento das suas colheitas? Teriam assistência dos técnicos extensionistas?

A resposta a todas essas perguntas é um ressonante não. A minha falecida avó só podia contar com o aluguer de um tractor para a lavoura profunda… e mais nada. Se ela não pudesse alugar o tractor, a solução era um arado puxado por bois, um trabalho manual antiquado. Essa foi a mecanização que ela teve. O solo também não era o melhor, ela teve que usar fertilizantes para corrigi-lo e teve que confiar na chuva para a irrigação. Ela, sim, teve alguma ajuda de extensionistas. Mas em comparação com os agricultores locais de Angola, estas não eram propriamente grandes vantagens. Angola também tem técnicos extensionistas, os solos de Angola provavelmente são melhores do que os do Zimbabwe e em certa medida temos acesso a fertilizantes e meios mecanizados de trabalhar a terra. Esses factores ajudam a garantir a produção de uma boa colheita mas não resolvem a grande dor que milhões de agricultores de subsistência em Angola e em África enfrentam, que é o acesso ao mercado.

Isso significa que os produtores do Zimbabwe tinham acesso ao mercado? A resposta é um claro sim. A minha avó sabia quem compraria o milho dela, o Conselho de Mercado de Cereais. Ela sabia quanto milho o conselho estava disposto a comprar: tudo o que ela pudesse produzir. Ela sabia quanto receberia por tonelada de milho mesmo antes de semear. O preço de compra do milho ao produtor era anunciado antes do início da estação chuvosa. Ela sabia como transportar o seu milho para o mercado. Havia um ponto central de recolha a apenas 3 Km de distância. Ela tinha a certeza que lhe pagariam. Ela recebia um cheque tão logo entregasse o produto na central de recolha! Era um bom sistema, embora não fosse perfeito. É aqui que entra a nossa solução.

O ecossistema da plataforma Kepya pode garantir tudo o que foi referido, mas de uma maneira ainda melhor. A Kepya fornece não apenas um comprador mas vários compradores, literalmente todos num único local: um mercado digital acessível desde os quatro cantos de Angola. Vejamos a avó Conceição (Angola), que cultiva tomates no Huambo. Ela pode expor sem custo os seus tomates na plataforma e ter muitos compradores a licitar por eles. Ela pode até registar os tomates na plataforma antes mesmo de amadurecerem. Ela não só tem a garantia do preço anunciado como de poder praticar o melhor preço num mercado transparente. Ela pode aceder ao transporte na sua província, consultando um dos muitos transportadores já registados na plataforma, e até pode partilhar o custo do frete com o produtor vizinho, melhorando desta forma a sua margem de lucro. Esse mesmo transportador pode recolher a mercadoria à porta da Avó Conceição porque a propriedade dela está referenciada por localização GPS (uma solução que será adoptada para utilizadores da plataforma). Ela tem a certeza de que será paga porque a plataforma garante que a entrega ao comprador só acontece quando o valor da transação for confirmado como pago. A comissão que ela paga por este serviço é um custo pequeno comparado com a paz de espírito que lhe dá. Esta é a proposta de valor da Kepya.

  • A Kepya nivela o campo de jogo e restaura a dignidade às muitas avós Conceição que estiveram em desvantagem por muito tempo como vítimas de intermediários sem escrúpulos.
  • A Kepya dá-lhe visibilidade, acesso a prestadores de serviços e fornecedores que que sabem exactamente o que ela precisa, em que quantidades e para onde.
  • A Kepya pode dizer-lhe o que cresce melhor na sua terra e que fertilizantes ela precisa para optimizar seus rendimentos.
  • A Kepya oferece formação e emprego aos seus netos desempregados que se exilaram em Luanda ou Benguela à procura de subsistência. A Kepya capacita.
  • A Kepya reúne aquela família dispersa e mantém-na unida enquanto cultiva de forma produtiva para o próprio bem, da sua aldeia, da sociedade e do seu país. E porque não pensar que será também para o bem do continente?

Kepya reduz o desperdício. Kepya reúne, Kepya capacita. Kepya aproxima para crescer.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *